Rápidas

26.12.05

Avícola

A cicatriz ali, na vertical do peito. Aquele coração já tocado pelas mãos de alguém. A energia interrompida, o corpo rompido por uma disfunção, acidente, descontrole, rompimento de veia ou vaso. E ele inteiro novamente, costurado, recuperado. O coração pulsando lá dentro do peito, que fora aberto como o peito de um frango assado ao ser cortado com tesoura para que o osso torácico se dividisse ao meio, fosse dividido e a carne mastigada, comida.
O peito raspado, a pele riscada e cindida. A mesa não era dominical ou natalina. Operação. Ao ser aberto, aquele peito de homem estava cru. Sangue banhando os órgãos, tecidos lubrificados, veias interligadas, coração batendo, vivo. A luta ali era pela vida. Luta que o frango perdera. Nenhum cirurgião lhe colocaria um marca-passo, nenhuma anestesia lhe seria aplicada para que na hora da sua morte ele não sentisse dor, ao menos menos dor. Então a tesoura lhe corta o peito, a carne branca e assada se rompe, o peito do frango é servido a um amigo, um familiar ou um desconhecido convidado.
E aquele que leva a cicatriz no peito reconheço, é meu homem. Ele come frangos.

Da fofa em 2002

Pensava eu, queria mesmo tomar um porre ontem. Esforcei-me, misturei vinho e cerveja, fumei um baseado apertado e muitíssimo fino -irritante!-, recebi poucos amigos, que me deixariam ser incoveniente e excessiva, caso atingisse corretamente meu objetivo simples. Que obviamente não se deu. Já sozinha,de objetivos zonzos e idéias secas, a última cerveja brigava com meus goles teimosos, quase dormi no sofá, um insulto! Larguei-a facilmente e cansada, deixei-a cheinha e gelada, a miserável. Fui dormir.