Rápidas

28.8.05

A carta, a tal carta levei uma tarde inteira para matutar, uma noite inteira para construir e um dia inteiro pensando nela. Carta que, apinhada de sinceridades ficou difícil de digerir, eu sei. Entrei pela noite organizando minhas constatações, deflagrei o que considerava relevante e agravante, suprimi a raiva para que a clareza se fizesse única. Nem por isso a carta é mansa. É uma resposta. Resposta a tudo o que se fazia escuso para mim. Posso rememorar parágrafos completos tão repensada. Sim, a carta é uma alforria própria. Sentenças econômicas de frases necessárias. Houve no entanto muito a dizer. Então a carta ficou longa, mas justa. E de entender triste. Mágoa? Todo o resíduo decantado dela.

Torci para que o dia amanhecesse nublado dando-me entusiasmo, como torci. Mas nasceu ensolarado e quente, o desavisado. A carta martelou e martelou minhas conversas telefônicas, meu almoço, meus compromissos e meu trânsito daqui para lá, para acolá e para cá. As frases vinham ora soltas ora em blocos. Os significados luziam enquanto pensava no que você sentirá ao ler a carta, no que você me responderá, embora o espaço seja escasso. Sei que há réplicas e talvez tréplicas possíveis. Mas há o indelével comigo nelas. Mandei a carta.

16.8.05

Placa

Estou em obras. Em pleno andamento de cuidar da minha vida. Ufa! Passei pelo lodaçal. Raspei até o osso as carnes da minha tristeza. Achei que chafurdaria naquela areia movediça até resfolegar uma última vez. Que nada. Sou feito de pó sobrevivente. Eu, que pago o preço de discordar. De uma porção considerável de coisas. Eu, que nasci abrilhantado e revolto. Deixo a saudade no futuro. Desamarro esse nó descontente. Vou para o beiral da vida e grito: essa condição não é minha! Ao contrário da vida que hei de carregar em mim.

Ondas

A vida é uma idéia. Distante.

A foto

Menino negro sem ser negro azul. Chupeta pendurada, espada empunhada. Bate com a espada numa caixa vazia. Branca. Bate. Não tem cara de raiva, lábios soltos. Bate e bate. Pára, vê se ninguém reclama. Menino debaixo do viaduto. Espada de plástico. Bate e bate. Não lhe importa o trânsito. A caixa. Interessa a caixa vazia a ceder em dobras. Pára, olha o monte de caixas que abrigam gentes da sua vida. Bate e bate sem fúria. Caixa vazia. Que não desmonta nem revela o grande nada da sua conquista.Meu farol abre.